11 de fevereiro de 2010

VOZ FEMININA


Há alguma coisa ou algo que seja definitivamente fácil de ser vivido? Sei não. Por mais que as pessoas vislumbrem situações com otimismo e esperança, parece mesmo que a cada esquina nos deparamos com algo a ser revisto, obstáculos a serem vencidos, decepções e dores que precisam ser elaboradas para que continuemos a caminhar.


O interessante é constatar que quanto mais facilidades temos materialmente, menos tranquilidade espiritual possuímos. Um descompasso que nos desconcerta ocasionando atropelos e enganos. Um caminho que, quando não observado com seriedade, pode nos conduzir a mais severa das depressões.

Em se tratando de voz feminina, assusta-me ver mulheres que se consideram ou que são consideradas “resolvidas”, chegarem ao extremo da depressão. Não faço aqui um juízo de valor ou julgamento, apenas uma análise de situações próximas e, outras, nem tanto, que fizeram-me repensar em que nos resolvemos. Basta observar a mais remota história para entender e analisar as dificuldades que as mulheres encontraram no processo de identificação de si mesma e de reconhecimento e valorização de seu papel enquanto ser social pensante e transformador.Não pretendo discutir igualdade ou afirmar a importância do papel feminino em todos os âmbitos sociais, essa discussão já não é necessária, o que pretendo é tentar entender porque tantas mulheres que profissionalmente são respeitadas e valorizadas pelo trabalho que antes nem acesso tinham, não conseguem a felicidade pessoal, o amor idealizado e fecham-se atrás de cortinas de vícios, corrompendo até mesmo aquilo que possuíam como essência. O que será que ainda nos falta? Em que ponto nos perdemos? Hoje, conseguimos a liberdade tão desejada? o que será que fizemos? Por que nos sentimos a cada dia mais sozinhas e vimos desmoronar nossos sonhos mais simples? 

Nos disseram para amar um corpo que não é nosso, nos disseram que precisávamos ser iguais aos homens, nos disseram para negar a natureza feminina, afetiva e emocional, como se isso fosse possível... só não nos disseram que perderíamos gentilezas tão necessárias,que seríamos tratadas como iguais sem sermos, que teríamos que acumular mais funções do que já tínhamos e, finalmente,que o preconceito continuaria existindo de forma velada e que tanto mal nos faria.

Assumimos e sumimos diante dos sonhos, dos anseios, dos desejos. Criamos um castelo solitário, onde o príncipe virou sapo e, ficou tão perdido e inseguro como nós mesmas.

Vícios, liberação sexual indefinida e desilusão a cada encontro, jogos de interesse e a descabida busca de prazer momentâneo. O Ter se sobrepõe à essência, o amor é mais um termo na expressão de sentimentos que machucam e perturbam sem oferecer nenhuma segurança. Uma felicidade passageira que muitas das vezes nem nos servem de lembrança, porque na verdade acarretou mais dor do que saudade.


Não é uma visão pessimista e nem estamos fadados a viver dessa forma. Talvez, seja o momento de repensar, observar e sentir. Repensar o nosso papel enquanto seres mais do que humanos, observar o quanto ainda podemos e devemos construir juntos e sentir que talvez estejamos passando por um momento em que devemos ‘tomar a nossa vida por nossas próprias mãos”. Nos destituindo de conceitos ultrapassados que homogeneízam e não consideram nossas diferenças, possibilidades e vontades.

Não quero ter medo de envelhecer, poderei me tornar um sábio. Não quero fazer com que a mídia me diga o que usar, vestir, falar, agir, amar e, tantas outras ações que não são e não devem ser monitoradas por nenhuma opinião pública. Quero ser capaz de amar sentindo, sem transformar o meu corpo ou o de quem estiver comigo em um objeto de uso, onde o que conta é o externo. Quero e preciso ter dignidade comigo mesma sentir cada palavra que falo e. portanto, pensar para falar. Uma dignidade precisa de quem quer olhar para trás e recolher os frutos de uma experiência de dores e alegrias, construindo um presente que não me leve a buscar o fim, mas, que possibilite renovações e recomeços, sem nenhum constrangimento ou culpa. A certeza de ter uma “missão”, assumindo-a diariamente, para que me sinta cada vez mais útil e que ao término dessa existência, obtenha a certeza de que não apenas passei ela vida.


Wanderlúcia Welerson Sott Meyer 

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