11 de junho de 2010

Pelos prós e contras, Brasil não ganha a Copa

(As chances da Seleção com a jabulani, na terra da vuvuzela)
Dedicado ao amigo e leitor João Rego Barros, que esteve recentemente na África do Sul (me trouxe de presente uma vuvuzela) e me disse que já há uma certa integração entre brancos e negros, mas a classe dominante ainda é branca.
Disse também que aquele inglês de Joel Santana
não era muito diferente do falado na África do Sul.
É fato. Se confrontarmos os prós e contras da Seleção, o Brasil não ganha esta Copa do Mundo. Os contras suplantam os prós. Mas também os contras não são tão maiores assim do que os prós. Significa que o Brasil tem chances de conquistar o Caneco, que hoje mais parece uma vuvuzela ou aquele porrete para conquistar mulher, usado na Idade da Pedra. Como os contras derrotam os prós, começo pelos contras.

Contras Contras Contras
1 – Não praticamos um futebol moderno
Se houver competência, fica muito fácil, para o Brasil, ganhar uma Copa. Como o Brasil conta sempre com os melhores jogadores do mundo, basta armar time inteligente e eficiente com eles, que a Copa vem para cá. E armar time inteligente e eficiente é praticar o futebol moderno: todos do time precisam ser versáteis, ou seja, defender, armar e finalizar com qualidade, como acontece, por exemplo, no basquete.
Não há esse grau de competência no atual comando. O time de Dunga, apesar de contar com muitos craques, joga um futebol envelhecido e superado. Todos jogam como especialistas em uma função: o goleiro, os zagueiros e os alas, o meio-campo, os atacantes e o centroavante.
Como a maioria dos times brasileiros, o de Dunga joga com aquele centroavante enfiado, que não sabe marcar direito (Luís Fabiano). O meio-campo é o meio-campo e o ataque é o ataque. Só que, no futebol moderno, os setores se confundem. Todos, inclusive o goleiro, fazem parte, ao mesmo tempo, do sistema defensivo, do sistema de armação e do sistema de finalização.
E o que resulta disso é que, mesmo contando com grandes jogadores, a Seleção ficou vulnerável, pois os atacantes não marcam direito, os homens de meio-campo não defendem nem armam e finalizam como deveriam (excesso de volantes de contenção) e os de defesa também não armam nem finalizam como deveriam.
É por essa razão que existe hoje uma avenida na Seleção, que vai do nosso centroavante (Luis Fabiano) ao nosso goleiro, por onde entram os adversários, chegando fácil ao gol brasileiro. Nossa mídia esportiva, que não entendeu isto ainda, continua dizendo que nossa defesa, apesar de ser a melhor do mundo, esteve vulnerável nos dois últimos amistosos e precisa melhorar. Foi também por este motivo que o Brasil tomou dois gols logo de cara dos Estados Unidos, na Copa das Confederações, e as seleções do Zimbabwe e da Tanzânia tiveram facilidade para chegar ao gol brasileiro nestes dois últimos amistosos.
Isto leva a crer que, quando o adversário é mais forte --- e há muitos deles nesta Copa ---, não é difícil fazer gol no Brasil.

2 – Dunga poderia ter dado mais qualidade ao elenco
Mesmo jogando errado assim, a Seleção poderia ter sido fortalecida. Dunga teve nas mãos a chance de melhorá-la, mas a jogou fora. Por exemplo, podia ter chamado Ganso, Neymar e André, do Santos (principalmente, André, o centroavante mais moderno do futebol brasileiro), além de Ronaldinho Gaúcho e outros. Isto, mais do que acrescentar na qualidade, teria rejuvenescido o elenco. Não adiantaram os apelos da torcida.

3 – Dunga não é um autêntico técnico
O problema é que Dunga não é um técnico clássico. O técnico clássico é aquele que já tem seu time na cabeça quando vai dirigir um clube ou a Seleção. Dunga, não. Ele foi experimentando jogador desde que chegou ao comando, há cerca de quatro anos, e só sossegou quando o time começou a dar certo. Quase quatro anos! Aí, quando o time começou a dar certo, Dunga fechou o grupo. Com isto, deixou de fora a molecada do Santos etc. Não é preciso ser conhecedor do futebol para saber que o Santos de hoje, com alguns reforços, faria mais bonito na África do que esta seleção de Dunga.

4 – O Brasil podia ter chegado à África desacreditado
Ajudaria muito. É verdade, a Seleção não chegou como em 2006, quando era favoritíssima, cheia de galácticos, em meio àquele clima de “já ganhei” e “ganhei fácil”. Mas chegou à África como vencedora das Eliminatórias e com pose de favorita. E isto não é bom. Os adversários armam esquemas especiais e usam de todos os artifícios, inclusive o anti-jogo (como a Itália ao ser campeã em 2006), para derrotar um favorito, ou seja, os adversários crescem muito nessas ocasiões, e aí tudo fica ainda mais complicado.

5 – Média de idade é alta demais
Esta Seleção é a mais velha, entre as brasileiras, a disputar uma Copa. A idade média dos atletas é superior até mesmo à do time de 1962. Podemos esperar um desgaste maior dos jogadores, consequentemente, queda mais rápida do rendimento.

6 – Brasil pega adversários fortes antes da final
Em todos os mundiais até aqui, ganhou a Seleção que apresentou bom futebol, mas que também não teve grandes adversários até a final. Não há exceção nisto. Em 2002, facilitou muito o Brasil não ter tido adversário forte a não ser na final (Alemanha), à exceção da Inglaterra, que não está no primeiro time do futebol mundial. Em 2006, a França eliminou o Brasil, mas caiu na final por uma Itália mais fraca. A Argentina também eliminou o Brasil em 90, mas perdeu na final para a Alemanha.
Nesta Copa da África, já a fase de classificação será uma pedreira para o Brasil, com Portugal, Costa do Marfim e até mesmo a Coreia do Norte, que é uma incógnita e promete dar trabalho. Além do mais, nas fases seguintes, é muito provável que o Brasil enfrente seleções já campeãs do mundo, se passar pela primeira fase. Isto poderá ser fatal, principalmente se levarmos em conta a alta média de idade dos nossos jogadores.

7 – Como estão Kaká e Luís Fabiano?
Alguns jogadores ainda são uma incógnita. Ninguém sabe como estão verdadeiramente Kaká e Luis Fabiano, que andaram se machucando e ainda se recuperam. Se não estiverem em plenas condições, isto poderá pesar muito para o Brasil, como pesou a escalação de jogadores acima do peso em 2006.

8 – Desequilíbrio emocional de alguns jogadores também vai pesar
Felipe Melo não suporta a menor provocação, nem mesmo em amistoso, como acabamos de ver. Na Copa, as provocações e entradas duras são freqüentes. Felipe Melo poderá ser expulso já no primeiro jogo. Se for, o Brasil pode perder da Coreia do Norte e ser um dos eliminados da chave.
E há outros como Felipe Melo. Luís Fabiano precisava mostrar que está em boas condições, nos últimos amistosos, e, irritado por não estar conseguindo fazer gol, chegou a empurrar um adversário para fora das quatro linhas, o que, na Copa, lhe renderia vistoso cartão vermelho. Outro que se irritou à toa com o adversário, por entrada dura, foi Daniel Alves. Atitudes como estas podem pôr tudo a perder.

Prós Prós Prós
1 – Dunga acertou ao “fechar” o grupo
Dunga agiu corretamente, pelo menos em parte, ao testar durante anos vários jogadores, para depois dar o grupo por “fechado”. Não há nada pior para o jogador do que ele ter de ficar o tempo todo mostrando e provando a qualidade de seu futebol, até a hora da convocação. No afã de ser convocado, ele acaba se desgastando e se estressando, o que o leva facilmente a contusões em seus clubes, podendo não ir à Copa.
Em 2006, Parreira não tinha Robinho como titular. O jogador esmerilhava nos treinos, fazia acrobacias e todas as formas de ginástica para ser o titular, até que não deu outra: contundiu-se treinando, fazendo com que Parreira deixasse de confiar nele para escalá-lo como titular. Se Robinho tivesse ido para aquela Copa como foi para esta, sem aquelas pressões, na qualidade de titular absoluto, o Brasil poderia ter ganhado o Mundial de 2006. São inúmeros os exemplos de jogadores que se contundiram e foram cortados às vésperas da Copa, por esse mesmo motivo.

2 – Dunga acertou na “volanteação”, embora nem tanto
Por ter sido volante e amar seu próprio futebol, Dunga “volanteou” a Seleção, ou seja, encheu a Seleção de volantes (joga geralmente com três). E isto não está errado. A Seleção atual ficou, por causa da “volanteação”, muito mais consistente e inteligente do que, por exemplo, a de Parreira de 2006.
O erro de Dunga, neste item, está em não ter sabido escolher os volantes. Hoje, os volantes têm de ser modernos. Principalmente, os de contenção. Eles têm de saber sair com a bola dominada e ter qualidade na armação e na finalização, como Ramirez.
Na Seleção de Dunga, Ramirez é o único volante assim, tanto que também pode ser considerado um meia. Daniel Alves é outro, mas joga como ala e nem titular é (é o coringa de Dunga, para salvar o time nos momentos difíceis). Os três volantes atualmente titulares não são completos como exige o futebol moderno. Mas Dunga pode vir a corrigir isso no transcorrer da Copa.

3 – Jogadores estão com sede de ganhar a Copa
Como o grupo foi “fechado” por Dunga com antecedência (até demais), os convocados puderam se tranquilizar mais cedo (raros precisaram, depois disso, mostrar serviço ou disputar posição). Isto fez com que o grupo se concentrasse na conquista do título. Jogador que chega a uma Copa para ganhar lugar no time titular se irrita e se estressa com facilidade, principalmente se as coisas não dão certo, e podem pôr tudo a perder. Por isso, não têm tempo para pensar no conjunto, no coletivo, muito menos para adquirir aqueeeeeela vontade de conquistar o título.
No atual time de Dunga, ainda há jogadores nessa condição, mas poucos. Isto fez com que o grupo estivesse muito mais unido do que o de 2006 e adquirisse a necessária fome de título. Isto ajuda, mas ainda é pouco para se ganhar um Mundial.

4 – Seleção sabe marcar armando contra-ataques fatais
A maior virtude desta Seleção de Dunga é saber jogar marcando o adversário na pressão, na saída de bola, e com amplas condições de armar bons contra-ataques, exigência do futebol moderno. Ainda que seja vulnerável e sem apresentar um futebol moderno, esse time de Dunga ganha muito em equilíbrio e eficiência, por jogar assim.

5 – A Copa é na África, o que ajuda muito
Se a Copa fosse na Europa ou nas Américas, fora do Brasil, a chance seria muito maior de a maioria torcer contra a Seleção. Ao que parece, a segunda seleção dos sul-africanos é a brasileira --- inclusive o técnico da África do Sul é brasileiro, Parreira ---, e teremos muita torcida por lá. Também na África é menor a chance de a arbitragem vir a favorecer mais o adversário do que se os jogos fossem na Europa ou nas Américas, fora do Brasil. Erros de arbitragem pesam muito numa Copa.
Em 1994, o Brasil chegou à final contra a Itália porque o juiz não viu uma falta para cartão vermelho de Branco, no jogo contra a Holanda. Segundos depois de cometer a falta, Branco cavou outra, bateu a que cavou e ela resultou no gol da vitória brasileira. Não fossem estes dois erros seguidos do juiz, o Brasil poderia não ter passado pela Holanda, naquele jogo. E aí não teria sido o campeão mundial de 1994.
Se aquela Copa tivesse acontecido, por exemplo, na Holanda, com certeza o juiz não teria cometido aqueles dois erros gritantes que favoreceram o Brasil. Agora, na África, a possibilidade de o Brasil vir a ser prejudicado pela arbitragem será com certeza menor do que se o Mundial fosse na Europa ou nas Américas, fora do Brasil, evidentemente. Sim, arbitragem é arbitragem, sempre uma caixinha de surpresas, mas é outro ponto a nosso favor.

6 – Europeus têm dificuldades para ganhar fora de casa
Por fim, os europeus enfrentam dificuldades para ganhar Copas fora de suas fronteiras (jamais ganharam uma). Dentro de casa, conseguem encher estádios com suas torcidas e, no que diz respeito ao clima e à altitude, não enfrentam problemas. Embora seja inverno na África do Sul, outros continentes sempre causam mais problemas de adaptação aos europeus, quando se trata de Copa, e isto pode ser mais um ponto favorável ao Brasil.
Como você pode ver, os contras vencem os prós, o que faz com que a probabilidade de o Brasil ganhar esta Copa da África seja menor do que a de perder. Mas eles provam também que o Brasil tem chances.
Abraços a todos, Tom Capri.

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