13 de julho de 2010

Geni-Press, nossa mídia esportiva, é de novo responsável pelo fiasco da Seleção na Copa e pela decadência de nosso futebol

Das limitações de PVC e Tostão ao despreparo de Daniel Piza
Jornalistas aqui citados ou criticados: Paulo Vinícius Coelho (PVC), Sérgio Augusto, Luis Fernando Verissimo, Tostão, Daniel Piza, Paulo Calçade, Mauro Cezar Pereira, João Saldanha, Nélson Rodrigues, Roberto Avallone, Galvão Bueno, Cléber Machado, Fernando Calazans, José Trajano, Ethevaldo Siqueira e Juca Kfouri.
A Ethevaldo Siqueira, que poderia ser deslumbrante, mas continua só deslumbrado.
Abertura que diz tudo
Isto é tão óbvio quanto a frustração de Lula pela precoce eliminação do Brasil, tirando preciosos votos de Dilma: a Geni-Press --- nome que dou à nossa crônica esportiva, pois merece que se jogue muita bosta nela, como você vai poder comprovar aqui --- é de novo a grande responsável pelo nosso fiasco na Copa, exatamente como aconteceu em 2006. E é fácil entender, só não saca quem não quer. São basicamente duas as razões já comprovadas. Há muito tempo a mídia especializada já deveria ter desmantelado a CBF, a Fifa e seu viciado comando, os quais, envolvidos em corrupção, estão levando o futebol mundial à falência e nossa seleção às derrotas. Como deixou de ser combativa e está comprometida, a mídia esportiva não consegue mais sanear. Em 1969, eu e o repórter Roberto Avallone, pelo Estadão e o Jornal da Tarde, derrubamos o comando da Seleção em plena ditadura militar. A então CBD foi obrigada a chamar alguém de peso, o célebre João Saldanha, que convocou a maior Seleção da História --- as Feras do Saldanha --- que, pelas mãos de Zagallo, ganhou a Copa de 70. 
Hoje, nem 40 Juca Kfouri são capazes de pôr para fora um Ricardo Teixeira. A outra razão: nossa mídia esportiva não entende de futebol, não acompanhou sua evolução nem domina seus principais fundamentos. Como ela faz, do ponto de vista técnico, a cabeça dos treinadores, jogadores, dirigentes e até da torcida --- o que sai dela vai geralmente para a boca do povo, e vice-versa ---, o futebol brasileiro acaba eivado de noções e convicções erradas e obsoletas, na sua maioria emanadas da Geni-Press. 
A Seleção se deixa impregnar assim por essas falsas noções e convicções, ficando desprovida das qualidades que sempre teve, o que justifica as eliminações de 2006 e 2010. E, se não mudarmos nada nesse sentido, teremos novo fiasco em 2014, pela segunda vez em casa. Quer entender melhor isto? Leia os textos a seguir ou clique em

http://www.virobscurus.com.br/secao.asp?id=2&c_id=161 .

Primeiro texto
Análise das razões pelas quais a mídia esportiva é a verdadeira culpada pelos fiascos de 2006 e 2010
Primeira razão – Qualquer estudante de sociologia sabe que o verdadeiro papel da mídia, hoje, é defender e proteger, como guardiã, a vida regida pelo capital (em especial, naquilo que ela tem de essencial e no qual a vida capitalista se assenta, o direito de propriedade). Como a mídia faz isso? Não deixando que a máquina do capital se corrompa e garantindo que ela funcione bem azeitada. Qualquer estudante de sociologia sabe também que o real papel da mídia esportiva é, por extensão, o de defender e proteger, como leão-de-chácara, o grande e importante negócio capitalista em que se transformou o futebol. Hoje, além de baita negócio, o futebol é o mais eficaz anestésico das massas, tanto quanto a religião: na geral ou na arquibancada, o torcedor (na sua maioria, trabalhador) alcança o que geralmente não consegue na vida real, as vitórias, e além de ser vencedor, pode também ser patrão e reger seu time como é regido no trabalho: aos gritos e com a mesma impaciência, mesmo nas derrotas, sem temer ser mandado para a rua. Defender e proteger o futebol assim, como atraente negócio e importante fonte de compensação, é da parte da mídia lutar para que a estrutura do futebol esteja sempre azeitada e flua sem problemas. Como? Não deixando que sua máquina (Fifa, CBF etc.) seja contaminada pela corrupção ou entravada por qualquer outro obstáculo. 
Ocorre que quem comanda hoje a Fifa e a CBF não tem “ficha-limpa”: a estrutura do futebol já está podre e corrompida.
Agrava tudo isso o fato de que nossos cronistas esportivos mal sabem que esse é seu verdadeiro papel. Desconhecem que a mídia aí está unicamente para defender, proteger e conservar a ordem e o progresso, ou seja, a vida regida pelo capital. Também não sabem que o futebol virou essa forma anestesiante de compensação e esse atraente negócio capitalista. E, por fim, desconhecem que a mídia esportiva está hoje fadada e forçada a defender e proteger a estrutura do futebol, saneando e azeitando sempre sua máquina, no seu triste papel de principal leão-de-chácara.
E aí vem o pior: mais do que isso, nossa mídia esportiva é hoje parte desse circo --- vide a Globo, praticamente sócia da CBF e da Fórmula 1. Não há mais como a mídia combater os males do futebol. Envolveu-se de tal maneira na prática de tirar proveito dessa nova forma de compensação e desse novo grande negócio capitalista, que combater seus males é combater a si mesma.
Se nos anos 50, 60 e 70 nossa crônica esportiva era altamente combativa, de João Saldanha a Nélson Rodrigues, hoje ela nem mais crônica esportiva é. É Geni-Press, para tristeza dos fãs do futebol. Ou seja, é atividade exercida por cronistas inconscientes de seu papel e condenados à camisa-de-força da autocensura imposta pelos próprios veículos. Apenas para ficarmos num exemplo gritante, Galvão Bueno combater a CBF e a Fórmula 1, hoje em dia, é o mesmo que ele pedir para ser demitido. Afinal, sua emissora, a Globo, é hoje quase proprietária da CBF e da Fórmula 1.
Por estar assim amarrada, nossa crônica esportiva virou Geni-Press. E, ao virar Geni-Press --- ao deixar de ser combativa ---, permitiu que a corrupção tomasse conta e que o futebol acabasse dominado por máfias. Recente matéria de capa da revista CartaCapital (30 de junho, edição 602) mostra que a corrupção comandada por João Havelange, Joseph Blatter e Ricardo Teixeira, na Fifa e na CBF, estão levando o futebol mundial à falência. E não há como agir, porque a mídia está assim amarrada.
É justamente essa corrupção que vem afundando o futebol mundial. A solução, do ponto de vista capitalista, seria mexer por completo em sua estrutura (CBF e Fifa), para que fosse saneada e recuperada. Mas como, se a mídia esportiva interage hoje na qualidade de sócia nos negócios? Quem mais deseja conservar essa estrutura corrupta e falida são os próprios veículos nos quais trabalham nossos cronistas esportivos.
É difícil avistar solução nessas condições. Somente uma mídia esportiva combativa, e não Geni-Press, poderia viabilizar saída a partir da crítica e das denúncias. Só que não há como fazê-lo. Hoje, temos um Juca Kfouri gritando aqui, um Mauro Cezar Pereira ali, vozes perdidas no deserto, e o futebol a caminho de um triste fim.
A cobertura da Copa foi vazia. Os veículos não exploraram devidamente (por razões óbvias) o conflito Dunga-Globo. Poucos falaram das denúncias de corrupção na CBF e na Fifa, envolvendo Havelange, Blatter e Ricardo Teixeira. E também, à exceção de um ou outro veículo, não aproveitaram a Copa para mostrar como está a África, principalmente a África do Sul na questão do apartheid. Eu esperava mais, nesse sentido, de Luís Fernando Verissimo, por exemplo. Só o ESPN procurou avançar nisso, e inclusive noticiou com destaque a denúncia da revista CartaCapital, mas em geral a cobertura da mídia foi tímida.
Lamentavelmente, os próprios jornalistas boicotam os colegas mais combativos, porque também são parte ativa desse grande negócio em que se transformou o futebol. A mais recente vítima do processo é Sérgio Augusto, conceituado e brilhante articulista (em São Paulo, escreve para o Estadão). Botafoguense como eu, autor de livros sobre futebol e grande entendedor, Sérgio foi marginalizado pelo próprio jornal e não escreveu quase nada sobre a Copa da África. Isto é, o “Esporte” do Estadão marginaliza o que tem de melhor lá dentro. Incabível.
O que mais me entristece é que venho dizendo tudo isso e tenho bombardeado nossa mídia esportiva com estas verdades há mais de vinte anos. Escrevi até livro a respeito, A Geleia Verde-Amarela, em 2006 (disponível em pdf no meu site www.virobscurus.com.br). E a repercussão nunca é a que se poderia esperar de uma crônica esportiva que, sem sombra de dúvida, é hoje a melhor do mundo. Sim, muitos jornalistas da jovem e da velha guarda já falam esta língua, mas uma grande parcela --- inclusive, aqueles entre os que mais admiro, como Juca Kfouri, José Trajano, Fernando Calazans e outros ---, não só não a incorporaram ainda ao seu vocabulário, como a desprezaram e a rejeitaram, merecendo a alcunha de Geni-Press.
Segunda razão
A segunda razão que também explica por que nossa mídia esportiva é a grande culpada pelo fracasso do Brasil na África está no fato de que ela não entende de futebol. Não domina seus principais fundamentos. Não sabe para onde o futebol evoluiu, o que é o futebol moderno. Enfim, não conhece nem o próprio ofício. E quem não conhece o próprio ofício erra nas avaliações e nas críticas, por mais construtivas que sejam. E errar nas avaliações e críticas é induzir a Seleção e os clubes a erros. Como a mídia faz a cabeça do torcedor, este acaba sendo induzido também a falhas. E o mundo do futebol acaba mergulhado na cegueira e na ignorância.
Um exemplo: quando o cronista não sabe o que é um bom goleiro ou o que é um goleiro moderno, acaba badalando e sugerindo ou indicando goleiro errado para a Seleção ou para o clube. E se a Seleção ou o clube vão na desse cronista e chamam aquele goleiro que ele badalou, poderão se dar mal lá na frente. Quantas vezes você já viu esse filme não só na Seleção, mas nos clubes? O velho filme do jogador que é badalado pela mídia e, depois, não resulta em nada?
Isto aconteceu de forma gritante nas Copas de 2006 e agora de 2010. E nossa mídia esportiva (Geni-Press) até hoje não percebeu. Qual é, atualmente, o maior erro de avaliação do ponto de vista técnico de nossa Geni-Press, que inclusive a torna verdadeiramente responsável pelo fracasso do Brasil nas últimas Copas? Aí está.
Nossa Geni-Press ainda não percebeu que o futebol evoluiu tecnicamente para a utilização apenas de jogadores versáteis que fazem tudo em campo. Que hoje não há mais lugar para o especialista que exerce uma ou no máximo duas funções em campo (perdão, leitor, se você já ouviu esta ladainha zilhões de vezes, mas não há como fugir dela --- nossa Geni-Press insiste em não ver isto).
Vital Battaglia, repórter com alguns prêmios Esso, define muito bem o jogador moderno: “O futebol, nos dias de hoje, tem quase os mesmos conceitos do boxe ou do basquete americano: ataque, defesa, técnica e eficiência. Quer dizer, os onze jogadores têm de praticar o futebol total, do goleiro ao centroavante: cada um precisa saber defender, armar e concluir com eficiência. Enfim, precisa ser útil ao time em todos os sentidos, muito mais do que sua mera posição exige”, diz ele.
Até o goleiro precisa saber dominar bem a bola, para quando receber uma atrasada na fogueira, poder chutá-la rapidamente para frente. Além disso, precisa também saber finalizar direito, seja de cabeça ou nas cobranças de falta e pênalti. Apesar disso, a Seleção e nossos clubes não sabem utilizar devidamente o jogador versátil (temos tantos!). Eles ainda atuam como especialistas em cada função. E jogar errado assim tem sido um dos principais motivos pelos quais nossos times têm fracassado nas Copas, Libertadores e campeonatos internos (regionais e brasileiros).
Em resumo, ainda contamos com os melhores jogadores do mundo, mas não sabemos o que fazer com eles em campo, não sabemos como tirar o máximo de proveito de cada um. Ganhamos mais Copas do que todos os adversários porque a qualidade individual de nossos jogadores é tão superior, que isto compensa a falta de tutano para armar um time inteligente com os melhores do mundo.
Na verdade, nosso jogador precisa ser reeducado para jogar modernamente, tarefa para a Copa de 2014. Quando vai jogar na Europa ou em outras praças, nosso jogador aprende e se torna versátil e completo, a exemplo de Kaká e Ronaldinho Gaúcho. Mas, mantida a atual estrutura --- com a mídia envolvida até o pescoço ---, é evidente que isto não será possível, e é grande o risco de não ganharmos também em 2014.
Este foi inclusive o principal motivo, do ponto de vista técnico, do fracasso do Brasil nas Copas da Alemanha e África. A seleção de Dunga dispunha de muitos jogadores versáteis, bastante modernos (tinha o elenco campeão do mundo), mas não soube utilizá-los devidamente: todos jogaram como especialistas exercendo uma, no máximo, duas funções. Júlio César é um goleiro que não faz gol, Maicon só faz aquilo, Elano só faz aquilo, Luís Fabiano só faz aquilo, e ficamos nisso. Não viram a Espanha, a Holanda: todos fazem tudo, ora um corre por um setor, ora por outro?
A seleção de Dunga joga de forma escalonada, em blocos: você tem o goleiro, depois a defesa, em seguida o meio-campo e finalmente o ataque, com --- last but not least --- o velho centroavante clássico que joga enfiado lá na frente à espera de chuveiradas e bolas açucaradas (Luís Fabiano). E olhe que Fabiano é centroavante moderno que ajuda bastante (marca, arma e finaliza), mas isto não é suficiente.
O time de Dunga em pouco difere daquele de Parreira de 2006. A diferença está justamente na forma desse escalonamento: Parreira ainda por cima jogava com dois centroavantes enfiados (Ronaldo Fenômeno e Adriano), que eram mais postes do que qualquer outra coisa e além do mais estavam acima do peso. Já a seleção de Dunga joga com apenas um enfiado, Luis Fabiano, mas isto não funciona do mesmo jeito.
Lamento, mas time assim é burro. 
Ninguém mais joga dessa maneira no Planeta, só a Seleção e os times brasileiros. E nossa crônica esportiva ainda não percebeu isso. Também não nossos dirigentes, técnicos, jogadores e torcedores. O que agrava a situação é o fato de que a seleção de Dunga joga todos os jogos dessa mesma maneira, escalonada e em blocos, com poucas variações. E todo mundo já sacou isso, menos nossa mídia esportiva, nossa torcida e os brasileiros. Até os adversários mais frágeis, como Coreia do Norte e Costa do Marfim, já sabem de cor como jogamos.
Foi o que aconteceu nesta Copa. Quando o adversário joga assim de forma escalonada, basta você ir emparedando os blocos do inimigo, primeiramente o bloco que sai com a bola, e aí não dá mais para jogar. A Coreia do Norte procurou o tempo todo parar os “blocos” de nossa “seleção escalonada”. Só aquele gol sobrenatural de Maicon foi capaz de quebrar a parede coreana: a partir dali, eles tiveram de se abrir, e aí ganhamos com relativa facilidade. Naquele momento, deu para prever que, se um time mais forte viesse a fazer o mesmo com o Brasil, seríamos eliminados, como fomos pela Holanda.
Só quando joga um futebol solidário assim, em que todos fazem tudo em campo e predominam os versáteis, reaparece o futebol-arte.
A Seleção Brasileira apresentou pouco futebol-arte porque jogou dessa forma escalonada, por blocos, com Luis Fabiano pouco interagindo lá na frente. Se não tivéssemos jogado com centroavante adiantado e sim com um Ronaldinho Gaúcho ou mesmo um Ganso compondo o ataque, sem atacantes de ofício, tenho certeza de que teríamos ganhado esta Copa.
Do ponto de vista técnico, o que levou a Holanda a nos derrotar foi justamente esse escalonamento nosso, com Luís Fabiano jogando lá na frente e não variando a as jogadas, sem a versatilidade necessária para roubar a bola incessantemente e ajudar na defesa e também na armação. Além disso, tínhamos um meio-campo estanque que não faz gol nem arma direito (e os mais versáteis no banco, como Ramires). Jogando dessa forma burra, a maioria do tempo com um a menos (Luís Fabiano), só poderíamos ter sido surpreendidos pela Holanda, e o seríamos depois pela Alemanha ou pela Espanha.
Por estas razões que acabo de expor --- ignorância, despreparo e comprometimento da mídia esportiva com a estrutura ---, nossa Geni-Press é mesmo a grande culpada pelos fiascos nas duas últimas Copas e pelo fato de nosso futebol não ter mais futuro. Se nada for feito para mudar radicalmente essa situação, perderemos também a Copa de 2014, pela segunda vez em casa.

Segundo Texto

Exemplos gritantes de cronistas que ainda não entenderam o futebol moderno
Isso tudo que acabo de levantar a respeito de nossa Geni-Press venho fazendo há décadas. E nada de nossa mídia esportiva acordar. Escrevi até livro a respeito, já disse: A Geleia Verde-amarela. (versão disponível em pdf em meu site www.virobscurus.com.br). Vários jornalistas de esporte da nova e da velha guarda já falam essa nova língua. Mas a maioria --- inclusive alguns que mais admiro e sou fã --- não incorporou este discurso. Isto quando a mídia não frita criminosamente o jogador, que nunca é culpado de nada. Quando erra, a culpa não é dele, é de quem convocou ou contratou. Na Copa de 2006, o Estadão e outros crucificaram Ronaldinho Gaúcho, apontando-o como o “amarelão” da Copa. Gaúcho não se recuperou até hoje. Agora, querem crucificar Felipe Melo.
O Brasil inteiro sabia, há séculos, que ele poderia fazer aquilo. Por que o convocaram? A seguir, alguns exemplos gritantes de cronistas já consagrados que ainda não se deram conta dessas verdades do futebol moderno, e urge que o façam.
Paulo Vinícius Coelho (PVC), Folha e ESPN – Semanas antes da Copa, me dei o trabalho de visitar alguns jornalistas. Queria saber por que a mídia esportiva brasileira, apesar de ter sido tão alertada ao longo das últimas décadas, ainda não se familiarizara com esse discurso da modernidade, tão necessário à nossa crônica e ao nosso futebol. Paulo Vinícius Coelho (PVC) foi um deles. Recebeu-me muito bem no ESPN, ali no Sumaré, em São Paulo. PVC é uma enciclopédia ambulante do futebol. Sabe até a escalação do time em que eu jogava no Colégio Estadual, em Curitiba, nos meus 12 anos. De que adianta, se desconhece a essência do futebol moderno?
A resposta dele, evidentemente com outras palavras, foi a seguinte: “Essa é uma opinião sua, Tom, e não bate com a realidade. É o seu discurso, a realidade do futebol é outra e não mostra que as coisas são assim como você diz. Ninguém pode assumir uma análise errada como essa sua.” Retruquei que se tratava de uma das maiores evidências do futebol. A resposta: “É evidência para você, mais ninguém”.
Enfim, a maior evidência do futebol ainda não é nem evidência e muito menos faz sentido para PVC. De nossa conversa, pude tirar o seguinte: a mídia se envergonha por ter passado todos esses anos sem perceber o que há de mais óbvio no futebol moderno, essa procura maior pelos jogadores completos e versáteis, para fortalecer as equipes em todos os sentidos. Tal falta de percepção realmente atesta pobreza mental. Uns se calam diante desta verdade, outros preferem não aceitá-la como verdade, optando por achar que ela não existe nem faz sentido.
Ou seja, se a evidência me faz passar por burro, apagão geral, nego a existência da evidência. O problema é que a Copa da África escancarou essa nova realidade do futebol. É o que observa, por exemplo, Paulo Calçade, em seu artigo do Estadão, sob o título “Xavi é o estilo”, em que elogia Xavi, um das estrelas versáteis do futebol espanhol (Esportes de 9/7, página E6). Apesar de nos comprovar ser esta uma das maiores evidências do futebol moderno, Calçade ainda não conseguiu incorporá-la ao seu discurso, nem mesmo nesse seu artigo do Estadão, como você vai ver a seguir.
Paulo Calçade, Estadão – Acabo de ler esse último comentário de Calçade, em que elogia Xavi, o craque espanhol. No texto, o comentarista deixa claro que a Espanha era favorita contra a Holanda, na final do Mundial, por praticar futebol moderno e contar com time solidário que “sabe se instalar com a posse de bola no campo inimigo”. E que só sabe fazer isso bem porque tem craques como Xavi, segundo ele “jogador híbrido, pensador, volante, meia, construtor com a bola e destruidor sem ela”. Foi a melhor definição de jogador moderno que vi na nossa mídia esportiva. Entretanto, Calçade para por aí.
Sou admirador de dele, o acompanho há muito tempo. Se pensa assim, por que ainda não assumiu esse discurso do futebol moderno que ele mesmo de vez em quando louva, como acaba de fazer? Em nenhum comentário desta Copa, e em outros pregressos dele, vi uma linha sequer tocando no assunto. Um dia, vou perguntar a Calçade as razões.
Tostão, Folha etc. – Tostão é outro que jamais adotou o discurso do futebol moderno. E o caso dele é o que mais me impressiona. Tostão é um dos inventores desse futebol moderno que descrevi aqui. A seleção de 70 é a maior de todos os tempos por ter sido gigante no coletivo e nos valores individuais. Ou seja, porque já na época praticava o futebol moderno e porque contava com craques completos e versáteis, a exemplo de Tostão (a exceção estava na zaga, nos chutões de Brito).
O ataque tinha falso ponta-direita (Jairzinho), falso ponta-esquerda (Rivelino) e falso centroavante (Tostão, muito mais meia do que centroavante). Todos vinham de trás, eram improvisados. Os defensores e homens do meio-campo, com raras exceções, como Everaldo, avançavam buscando o gol, como Clodoaldo e Carlos Alberto. O time era um primor no coletivo, dada a versatilidade e a mobilidade da maioria, razão pela qual reapareceu naquele momento o melhor de nosso futebol, o futebol-arte. Tostão foi peça essencial naquela formação brilhante, mas até hoje não entendeu isto. Como pode?
Virou comentarista há algumas décadas e jamais conseguiu enxergar o que está rolando no futebol. Volta e meia apregoa, pegando carona em Armando Nogueira, que quem deve atacar é o atacante. Parece não ter feito parte do time maravilhoso de 1970, em que até defensores como Clodoaldo e Carlos Alberto atacavam e finalizavam, tendo sido autores de gols que garantiram aquela conquista. Hoje, todo mundo tem de atacar, até o goleiro, Tostão! Isto quando Tostão não fica defendendo o centroavante de ofício, apontando-o como extremamente necessário até mesmo na Seleção. Na Copa de 2006, disse que a Seleção ficaria melhor, mais forte e mais agressiva jogando com Ronaldo Fenômeno em boa forma do que com ele, Tostão, quando é exatamente o contrário!
Eu sei que é difícil aceitar isto, mas se tivéssemos o jovem Tostão no lugar do Fenômeno em 2002, teríamos ganhado aquela Copa com mais facilidade, pela mobilidade, versatilidade e poder de marcação que ele tinha. Não preciso dizer o mesmo da Copa de 2006: se tivéssemos dois semelhantes a Tostão jogando no lugar do Fenômeno e de Adriano, não teríamos perdido aquele Mundial. Eles seriam dois a mais e não dois a menos como foram os postes Adriano e Fenômeno acima do peso.
Daniel Piza, Estadão – De todos os cronistas que ainda não assumiram o discurso da modernidade, o que mais me incomoda é Piza. Dono de bom texto, cronista versátil (escreve sobre tudo), conseguiu ser o autor das maiores pérolas falsas de nossa Geni-Press, algumas das quais reproduzo aqui, não exatamente com as mesmas palavras:
--- “Técnico não é autor” (querendo dizer que técnico não ganha jogo, mas sim os jogadores. Será? Se técnico não ganhasse jogo, seria figura desnecessária, nem existiria; só que, em alguns casos, faz mais pela vitória do que os próprios jogadores).
--- “Esta Copa (da África) está sendo a das seleções que não pararam de buscar o gol e não se retrancaram.” Foi quase o contrário: a Alemanha pôs 4 a 0 na Argentina porque deixou o adversário partir para cima, o que lhe permitiu fazer os três últimos gols no contra-ataque, quando a Argentina mais buscava o ataque. A Holanda também não buscou o gol e deixou o Brasil jogar no primeiro tempo e até tomou baile; empatou naquele gol contra sobrenatural de Felipe Melo, e só quando o Brasil precisou se abrir para buscar a vitória ela encontrou mais facilidade e passou a buscar o gol. E há outros exemplos de seleções que, se não tivessem se fechado (como o Paraguai contra a Espanha), teriam tomado goleadas históricas. E há que considerar que, jogando fechado daquele jeito, o Paraguai por pouco não eliminou a Espanha.
--- “Centroavante precisa ter faro de gol e ficar 100% do tempo com o olho voltado para o gol como o tigre para a presa”. Errado, e aqui aparece com clareza a recusa de Piza em aceitar os principais fundamentos do futebol moderno: hoje em dia, o centroavante precisa dar o primeiro combate, ajudar muito na marcação e também na armação e ser mais útil ao time. Ou seja, hoje em dia o centroavante nem centroavante é mais. Para tanto, precisa ter fôlego de gato, tarefa que só um jovem como André, do Santos, por exemplo, pode exercer (e dizer que o Santos desprezou a qualidade de André, que vinha sendo mais importante para o time do que Neymar ou Robinho).
As seleções que se destacaram na Copa da África tiveram, em seus centroavantes, justamente esse jogador versátil e de grande mobilidade, utilíssimo ao time muito mais do que como meramente matador. Ninguém mais joga hoje com centroavante plantado e matador, nem mesmo a Argentina, só nós.
Juca Kfouri, Folha, Rede Globo, ESPN – É o último dos moicanos, no combate à estrutura. Foi parte atuante na Democracia Corintiana, seu mais importante trabalho dentro do jornalismo esportivo. Está entre os raros que têm suficiente cultura para poder cuspir na estrutura, como tanto queria Raul Seixas. No entanto, não entendeu ainda o que é o futebol moderno e prossegue cultuando o craque especialista que só exerce uma ou duas funções em campo. Ainda é jovem no combate, mas velho e obscoleto nas análises. Não é uma pena?
José Trajano, ESPN – Fez belo trabalho nas Copas da Alemanha e da África, no comando do ESPN. Sua equipe procurou levantar os grandes problemas do continente e mostrou que ainda está vivo o apartheid na África do Sul. Nesta Copa, fez também jornalismo investigativo, apontando as grandes questões sociais principalmente da África do Sul. O que foi bastante corajoso, se levarmos em conta que o ESPN propõe-se apenas ao entretenimento (como seu próprio nome diz) e é canal da Disney, empresa fundada por Walt Disney. É sabido, Walt foi informante do FBI nos anos 50 (entregou celebridades ao macartismo, como Tennessee Williams, entre outros), nos anos 30 flertou com o nazismo até lhe fazer oposição e por um período aceitou como natural o apartheid em seu país (EUA). Apesar de tudo isso, Trajano é outro que ainda não incorporou o discurso da modernidade do futebol, o que muito me entristece.
Galvão Bueno e Cléber Machado, TV Globo e SporTV – Parecem ter entendido tudo isso que rola no futebol e na Fórmula 1, mas estão visivelmente amarrados, não podem falar. Até porque, falo mais de Galvão, parecem estar diretamente envolvidos nos negócios entre CBF e Fórmula 1 e seus veículos. Mas, do ponto de vista técnico, já poderiam ter assumido o discurso da modernidade, uma vez que demonstram estar familiarizados com ele.
Eu até já andei espalhando por aí que o correto não é “Cala a boca, Galvão!”, mas sim “Fala mais, Galvão!”. Mas sei que Galvão não irá abrir a boca tão cedo, se é que um dia abrirá. Experimente tentar uma entrevista com ele.
E os europeus rindo novamente de nós. Até quando a Geni-Press continuará abusando assim de nossa paciência? Até quando continuará sem assumir seu verdadeiro papel? Abraços a todos, Tom Capri.

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